quinta-feira, 6 de março de 2014

TODO FILHO É PAI DA MORTE DE SEU PAI.




Há uma quebra na história familiar onde as
idades se acumulam e se sobrepõem e a
ordem natural não tem sentido: é quando
o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear
como se estivesse dentro de uma névoa.
Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força
nossa mão já não tem como se levantar sozinho.

É quando aquele pai, que antigamente mandava
e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura
onde é a porta e onde é a janela- tudo é corredor,
tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador,
fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará
de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão
trocar de papel e aceitar que somos responsáveis
por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende
de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja
curiosamente nossa última gravidez. Nosso
último ensinamento. Fase para devolver os cuidados
que nos foram confiados ao longo das décadas, de
retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos
bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos,
vamos alterar a rotina dos móveis para criar os
nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra
no box do chuveiro.

A barra é emblemática, a barra é simbólica, a barra é
inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um
temporal para os pés idosos de nossos protetores.

Não podemos abandoná-los em nenhum momento,
inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos
pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados,
sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com o objetos,
envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos
cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvidas
e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores,
engenheiros frustrados. Como não previmos que os
pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do
acesso caracol, nos arrependeremos de cada
obstáculo e tapetes.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte,
e triste do filho que aparece somente no enterro e
não de despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até
seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama
para a maca, buscando repor os lençóis, quando o
Zé gritou de sua cadeira:

- Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu
pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra o peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo
câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom  tempo, um tempo
equivalente à sua infância, um tempo equivalente
à sua adolescência, um bom tempo, um tempo
interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
- Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua
vida é que seu filho está ali!


(Fabrício Carpinejar).

Fonte da imagem:

http://www.google.com.br

Amigos estou de volta.

Beijooo.

7 comentários:

Claudete disse...

Ana ,minha cara, há quanto tempo nao te visito e me enterneci com o texto de Carpinejar , poeta sensível e realista, que conheci há pouco tempo e passei a admirar. O texto poético diz bem da realidade de cada um ...Parecem todas iguais . São todas iguais! A finitude com a vulnerabilidade inerente deveria ser sempre assim na relação pai/filho, um amor invertido , mas trazendo um pouco daquela máxima -"um dia eu estarei nolugar do meu pai ou da minha mãe". Beijos

✿ chica disse...

Maravilhoso e tocante texto e conheço quem deve lê-lo...bjs bom retorno! chica

Eliane disse...

Amiga Ana, que bom que voltou!
Gabriel já deve estar crescido, não é?
Emocionante esse texto.
Bom fim de semana e beijos!

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Ana
Meu pai amado se foi há 4 anos e meio e eu li pensando nele... estive ao lado dele quando ele mais precisou... como Deus é bom!!!
Bjm fraterno e quaresmal

Viviana disse...

Querida Ana linda

Olá, minha boa amiga

Quanta saudade...

Ah! mas quanto eu gostei deste poema extraordinário!?
Está tudinho lá...tal como é.
Ainda há pouco falei pelo telefone com uma jovem prima, querida, que longe daqui...no Norte de Portugal..cuida e acarinha o seu pai, meu querido tio Francisco, de 90 anos...que está totalmente dependente...excepto no caminhar.

Estava lendo o poema e a lembrar as palavras da Amélia.

Vou levar comigo, certo?
tenho que guardar e tenho que partilhar.

Um grande abraço
Uma semana muito linda e abençoada
Viviana

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida Ana

Hoje passando para desejar uma Feliz Páscoa , plena de amor e paz, junto de todos que te são queridos.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Rosani disse...

So que está passando por esse momento sabe como é dolorido, triste. Eu sou uma desses filhos. lindo texto. obrigada por compartilhar.